Marta Morgado, Associada da APsurdos
silêncio? O que é silêncio?
uma palavra inventada pelos ouvintes?
explica-me tu, o que é o silêncio?
olhas-me assim?
a viver no silêncio?
ser Surda é ser Silêncio?
vou ao dicionário, folheio nas últimas folhas
vou ao “S”…. encontro “Surdo”
“que ou aquele que não ouve”
sou aquele que não ouve?
é assim que me vês?
vou ao “silêncio”
“ausência de ruído”
ruído? O que é o “ruído”?
mais uma palavra do ouvinte.
não, desconheço o silêncio
desconheço o ruído
desconheço estas palavras.
simplesmente, não ouço?
ouço sim, ouço as minhas mãos, ouço as tuas
as minhas mãos é que são a minha voz
são elas que fazem encantar
são elas que fazem escrever estas palavras
são elas que fazem gestos,
sabes o que é o gesto?
gestos são palavras esculpidas.
mas silêncio e ruído
desculpe mas não os conheço!
António Bagão Félix, Político
O silêncio não é apenas a ausência do som, como a sombra não se esgota na ausência da luz.
O silêncio é consubstancial a toda a natureza e, por isso, a nós. Está presente em tudo e convive dentro de todos, ainda que ameaçado, vilipendiado ou ignorado. Não é o silêncio uma forma de pureza que nos interpela num mundo de tanta impureza? Não é o silêncio uma forma de solidão na sociedade que a ela foge em nome do seu contrário? Não é o silêncio que nos aproxima da morte o mesmo que escutámos no ventre materno usufruindo da sua plenitude prenhe de amor?
É o silêncio, mais do que o seu oposto, que mede o nosso estado de espírito. Logo, não há apenas o silêncio, há os silêncios. Da alegria, do desgosto, do amor, da fé, da concordância, da discordância, da liberdade, da eloquência, da serenidade, do desespero, da esperança, da convicção, da ignorância, da verdade, da coragem, do medo.
O silêncio é uma forma de perfeição no mais íntimo dos nossos espíritos. O olhar pode ser muito mais do que o silêncio de uma palavra não dita. O silêncio da oração pode ser dito por palavras. O silêncio de quem está só pode quebrar a solidão aparente do som que não está presente. O silêncio é a forma serena de se adormecer e o modo suave de se acordar.
O silêncio do reencontro é a forma perfeita do abraço. O silêncio na morte do ente ou amigo diz tudo no respeito de nada dizer. O silêncio é a nossa forma de pureza transportada na infância da nossa memória.
A nossa sociedade incomoda-se com o silêncio. O silêncio não é comercial, não é televisionado, seria ridículo na rádio, não enche páginas de jornais, não se associa ao sucesso, transmite-se às novas gerações com um sentido fúnebre. O silêncio incomoda porque interpela, perturba porque brota da alma, aborrece porque não rende, afasta porque se crê não comunicar, desafia porque pode ser uma forma de pedagogia.
O silêncio pode ser a expressão cristalina, límpida, pura, de nos exprimirmos e de nos sentirmos ser. O silêncio não se explica, ouve-se. Convida-nos à profilaxia da introspecção, aproxima-nos de nós mesmos, orienta-nos na selecção do que ouvimos. O silêncio é o eco da nossa existência e o som da nossa não existência. O silêncio é a mais sublime forma de purificação e de reencontro com nós mesmos.
O silêncio não acaba porque não tem medida, nem tempo. Como tal, o silêncio é eterno e existe para além de nós, na imensidão do universo e na compreensão de Deus. E Deus ama o nosso silêncio que Lhe é oblado na quietude do templo e na serenidade do encontro.
Publicado no livro do autor Do lado de cá, ao deus-dará, Editora Sopa de Letras, 2002
Paulo Teixeira Pinto, Presidente do Millennium bcp
Palavra Final
Era uma vez um homem que decidiu ler um grande dicionário antes de morrer. Ler mesmo. Do princípio até ao fim, da primeira palavra até à última.
E assim fez. Porque nestes derradeiros dias percebera que nunca conseguiria ler todos os livros que durante a vida escolhera como tendo de ser lidos. Por isso resolveu ler aquele que continha todas as palavras da sua língua impressas em todos os outros.
Quando acabou de ler o dicionário inteiro ainda não tinha a vista cansada. Apenas lhe doía o som das palavras. E, agarrado ao livro, perguntava de si para si, em sussurro inquieto, porque razão qualquer palavra podia magoar tanto. Recordou-se então de quando era criança e do que pensava quando o repreendiam. Para se consolar das palavras que sentia como injustas costumava dizer para si próprio que elas eram apenas sons e que estes não podem fazer mal a ninguém. Logo, também não o poderiam atingir a ele. Seria como se fosse surdo. Outras vezes imaginava que as mesmas palavras que o ofendiam nada significariam se fossem ditas a um esquimó, porque lhe escaparia necessariamente o respectivo sentido.
Agora que estava no fim da vida sentia-se capaz de uma reflexão mais elaborada. Habituara-se a meditar que até hoje ninguém dominara a língua como os clássicos e, no entanto, quantos de entre todos os homens – perguntou-se ao longo dos anos - poderiam alcançar ou ser alcançados pelos juízos manuscritos em puros vocábulos latinos?
Parou para demandar o silêncio. Só a sua respiração o interrompia. Fixou-se em meditar no maravilhoso que era inspirar. Nunca até então tinha reparado em como o ar entrava frio para ele e dele saía quente. A seguir averiguou cada membro do seu velho corpo e tentou perceber a importância das suas principais funções. Também jamais em todo o seu viver se dera conta de como lhes era devedor. Sentiu-se bem. Muito bem. Não como se estivesse fora do seu corpo mas, pelo contrário, e pela primeira vez, como ideal dentro do corpo real em que por enquanto, e desde sempre, habitava. Contemplou a terra inteira à sua volta. Mas fê-lo costas para o sol porque nunca quis que fosse o mundo a mirá-lo a ele. Desde sempre se ocultara atrás do seu próprio brilho. Agora descobria que só da sombra poderia ver a luz. Depois cerrou os olhos e fixou-se de novo e em exclusivo no ar que sorvia. Esperou pelo som dos barulhos do mundo. Já se lhes habituara tanto que nem notava que existiam. Ensaiou identificar primeiro os mais altos para detectar a seguir os mais baixos e só por fim tentar distinguir os graves dos agudos. Desligou o formigueiro que tentava o seu corpo imóvel. Permaneceu quieto. Afinal o universo estava ali e nunca tivera tempo de lhe perguntar porquê.
Ao fim de um momento sem duração o dicionário caiu-lhe das mãos. Descerrou de novo os olhos mas continuou como estava, sem se mexer. Procurou saber das mãos que largaram o livro. Estavam lá mas não lhe obedeceram. Sem querer ouviu-se a dizer que
“o sentido das palavras é inversamente proporcional ao som, posto que quanto mais longe chegar o sentido, mais distante resulta do que é mais audível; e o lugar onde todas as palavras são uma só reside no cruzamento entre a expressão e a percepção, o ponto exacto onde se interceptam a coordenada e a abcissa de uma e de outra”.
No mesmo instante intuiu o paradoxo do estranho teorema declamado da sua boca. Ele ouvira as palavras que não dissera e aprendera o que não compreendia.
Traçou no céu o que se passara. Era assim

Depois viu que alguém aditou duas linhas ao seu desenho imaginário. Nunca soube quem as acrescentou, apenas percebeu que o prolongamento da linha horizontal para o lado esquerdo e da vertical para baixo originava uma cruz. No centro desta estava o silêncio, que era o nome único das palavras que não vinham no dicionário.
Pôs-se de pé. Levantou a cabeça. Fechou os olhos por uma última vez.
Ouviu a Palavra.
Publicado no livro do autor Querer Crer, 2002
Transitum
com as
sete notas
ensaiara
todas
as combinações
entre si
possíveis
antes contadas
como infinitas
e só depois
acreditou
que o som puro
existe mesmo
chamou-lhe então
silêncio
Texto inédito, a publicar oportunamente pelo autor
Raul Solnado, Actor
Um minuto pode ser muito ou pouco tempo. Tudo ou nada. Quando pedimos a alguém que nos dê qualquer informação, se não tivermos pressa, um minuto pode ter para nós a leveza de um segundo, e pelo contrário, se estivermos apressados, um minuto poderá significar uma antiguidade.
E se tivermos a cabeça mergulhada no mar ou numa piscina, quanto tempo é este? É apenas o compasso de um fôlego, ou um desmaio a caminho da morte? E quantos minutos mudaram a nossa vida?
Como alguém disse, o “Tempo é a imagem móvel da imóvel eternidade”, e um minuto é um pingo no tempo, mas aquela permanência pode ser nula ou poderosa.
Ali, naquela brevidade, enquanto aquele ínfimo tempo está activado, tudo ou nada pode acontecer. Podemos pensar nas nossas alegrias menores: a camisa que ontem se rasgou, o numero da loteria que não saiu, ou uma velha prima que tem a ureia elevada, ou a porta da casa de banho empenou.
Como é eram utilizados os minutos do Nero, do Hitler, do Estaline, ou dum criminoso de serie? Teria sido uma emboia nas nossas ampulhetas ou uma avaria no relógio de Deus?
E São Francisco, o Padre Cruz, os médicos João Semana e o Bill Gattes, que é quase como um ser bipolar: em sessenta segundos pode pensar em ganhar não sei quantos milhões e simultaneamente, naquela pequena porção de tempo pode pensar distribuir não sei quantos milhões na sua fabulosa obra social? E aquele genial minuto do Galileu que pôs o mundo às avessas?
Se o tempo é oiro, há minutos que são diamantes.
Raul Solnado enviou, por lapso, este texto sobre «um minuto» e não sobre «Silêncio». Posteriormente escreveu então novo texto sobre o tema solicitado, publicado no livro.