António Bagão Félix, Político


O silêncio não é apenas a ausência do som, como a sombra não se esgota na ausência da luz.

O silêncio é consubstancial a toda a natureza e, por isso, a nós. Está presente em tudo e convive dentro de todos, ainda que ameaçado, vilipendiado ou ignorado. Não é o silêncio uma forma de pureza que nos interpela num mundo de tanta impureza? Não é o silêncio uma forma de solidão na sociedade que a ela foge em nome do seu contrário? Não é o silêncio que nos aproxima da morte o mesmo que escutámos no ventre materno usufruindo da sua plenitude prenhe de amor?

É o silêncio, mais do que o seu oposto, que mede o nosso estado de espírito. Logo, não há apenas o silêncio, há os silêncios. Da alegria, do desgosto, do amor, da fé, da concordância, da discordância, da liberdade, da eloquência, da serenidade, do desespero, da esperança, da convicção, da ignorância, da verdade, da coragem, do medo.

O silêncio é uma forma de perfeição no mais íntimo dos nossos espíritos. O olhar pode ser muito mais do que o silêncio de uma palavra não dita. O silêncio da oração pode ser dito por palavras. O silêncio de quem está só pode quebrar a solidão aparente do som que não está presente. O silêncio é a forma serena de se adormecer e o modo suave de se acordar.

O silêncio do reencontro é a forma perfeita do abraço. O silêncio na morte do ente ou amigo diz tudo no respeito de nada dizer. O silêncio é a nossa forma de pureza transportada na infância da nossa memória.

A nossa sociedade incomoda-se com o silêncio. O silêncio não é comercial, não é televisionado, seria ridículo na rádio, não enche páginas de jornais, não se associa ao sucesso, transmite-se às novas gerações com um sentido fúnebre. O silêncio incomoda porque interpela, perturba porque brota da alma, aborrece porque não rende, afasta porque se crê não comunicar, desafia porque pode ser uma forma de pedagogia.

O silêncio pode ser a expressão cristalina, límpida, pura, de nos exprimirmos e de nos sentirmos ser. O silêncio não se explica, ouve-se. Convida-nos à profilaxia da introspecção, aproxima-nos de nós mesmos, orienta-nos na selecção do que ouvimos. O silêncio é o eco da nossa existência e o som da nossa não existência. O silêncio é a mais sublime forma de purificação e de reencontro com nós mesmos.

O silêncio não acaba porque não tem medida, nem tempo. Como tal, o silêncio é eterno e existe para além de nós, na imensidão do universo e na compreensão de Deus. E Deus ama o nosso silêncio que Lhe é oblado na quietude do templo e na serenidade do encontro.


Publicado no livro do autor Do lado de cá, ao deus-dará, Editora Sopa de Letras, 2002