Paulo Teixeira Pinto, Presidente do Millennium bcp
Palavra Final
Era uma vez um homem que decidiu ler um grande dicionário antes de morrer. Ler mesmo. Do princípio até ao fim, da primeira palavra até à última.
E assim fez. Porque nestes derradeiros dias percebera que nunca conseguiria ler todos os livros que durante a vida escolhera como tendo de ser lidos. Por isso resolveu ler aquele que continha todas as palavras da sua língua impressas em todos os outros.
Quando acabou de ler o dicionário inteiro ainda não tinha a vista cansada. Apenas lhe doía o som das palavras. E, agarrado ao livro, perguntava de si para si, em sussurro inquieto, porque razão qualquer palavra podia magoar tanto. Recordou-se então de quando era criança e do que pensava quando o repreendiam. Para se consolar das palavras que sentia como injustas costumava dizer para si próprio que elas eram apenas sons e que estes não podem fazer mal a ninguém. Logo, também não o poderiam atingir a ele. Seria como se fosse surdo. Outras vezes imaginava que as mesmas palavras que o ofendiam nada significariam se fossem ditas a um esquimó, porque lhe escaparia necessariamente o respectivo sentido.
Agora que estava no fim da vida sentia-se capaz de uma reflexão mais elaborada. Habituara-se a meditar que até hoje ninguém dominara a língua como os clássicos e, no entanto, quantos de entre todos os homens – perguntou-se ao longo dos anos - poderiam alcançar ou ser alcançados pelos juízos manuscritos em puros vocábulos latinos?
Parou para demandar o silêncio. Só a sua respiração o interrompia. Fixou-se em meditar no maravilhoso que era inspirar. Nunca até então tinha reparado em como o ar entrava frio para ele e dele saía quente. A seguir averiguou cada membro do seu velho corpo e tentou perceber a importância das suas principais funções. Também jamais em todo o seu viver se dera conta de como lhes era devedor. Sentiu-se bem. Muito bem. Não como se estivesse fora do seu corpo mas, pelo contrário, e pela primeira vez, como ideal dentro do corpo real em que por enquanto, e desde sempre, habitava. Contemplou a terra inteira à sua volta. Mas fê-lo costas para o sol porque nunca quis que fosse o mundo a mirá-lo a ele. Desde sempre se ocultara atrás do seu próprio brilho. Agora descobria que só da sombra poderia ver a luz. Depois cerrou os olhos e fixou-se de novo e em exclusivo no ar que sorvia. Esperou pelo som dos barulhos do mundo. Já se lhes habituara tanto que nem notava que existiam. Ensaiou identificar primeiro os mais altos para detectar a seguir os mais baixos e só por fim tentar distinguir os graves dos agudos. Desligou o formigueiro que tentava o seu corpo imóvel. Permaneceu quieto. Afinal o universo estava ali e nunca tivera tempo de lhe perguntar porquê.
Ao fim de um momento sem duração o dicionário caiu-lhe das mãos. Descerrou de novo os olhos mas continuou como estava, sem se mexer. Procurou saber das mãos que largaram o livro. Estavam lá mas não lhe obedeceram. Sem querer ouviu-se a dizer que
“o sentido das palavras é inversamente proporcional ao som, posto que quanto mais longe chegar o sentido, mais distante resulta do que é mais audível; e o lugar onde todas as palavras são uma só reside no cruzamento entre a expressão e a percepção, o ponto exacto onde se interceptam a coordenada e a abcissa de uma e de outra”.
No mesmo instante intuiu o paradoxo do estranho teorema declamado da sua boca. Ele ouvira as palavras que não dissera e aprendera o que não compreendia.
Traçou no céu o que se passara. Era assim

Depois viu que alguém aditou duas linhas ao seu desenho imaginário. Nunca soube quem as acrescentou, apenas percebeu que o prolongamento da linha horizontal para o lado esquerdo e da vertical para baixo originava uma cruz. No centro desta estava o silêncio, que era o nome único das palavras que não vinham no dicionário.
Pôs-se de pé. Levantou a cabeça. Fechou os olhos por uma última vez.
Ouviu a Palavra.
Publicado no livro do autor Querer Crer, Editora Diel, 2002
Transitum
com as
sete notas
ensaiara
todas
as combinações
entre si
possíveis
antes contadas
como infinitas
e só depois
acreditou
que o som puro
existe mesmo
chamou-lhe então
silêncio
Texto inédito, a publicar oportunamente pelo autor